"Algumas pessoas podem achar estranho
escrever para alguém que ainda não sabe ler, mas para tantos é
normal escrever em diários que ninguém mais lerá.
Eu acompanho a tua história desde
quando você ainda não existia. Fiquei feliz quando os teus pais
começaram a namorar, vibrei quando tua mãe descobriu que estava
grávida, acompanhei toda a gestação aqui do outro lado, comemorei
o teu nascimento e desde então sigo os teus passos através da tua
mãe.
A primeira vez que nos vimos foi pouco
antes do teu batizado. Todos se encantavam por você. E não era
apenas pelos olhos azuis hipnotizantes, não. Você era um bebê
encantador.
Antes de voltarmos para casa passamos
uma tarde na piscina e me admirei ao notar que você não se
assustava ao ficar submerso, como a maioria dos bebês.
Um ano depois estávamos juntos
novamente. Desta vez eram vocês que estavam no Brasil. Sua primeira
visita.
Assim que entramos na casa da tua avó
você se atirou no meu colo. “Ele me reconheceu!”, pensei todo
contente. Logo depois nos disseram que você adorava fugir para o
corredor e não te deixavam ir sozinho. Não foi difícil entender as
tuas intenções.
E esta não foi a única vez que você
se aproveitou de mim. Noutro dia, você sentou no meu colo e me
estendeu o pé para que eu tirasse o teu tênis. Quando tirei o
segundo pé, você se jogou no chão e saiu correndo, sem olhar para
trás.
E das poucas recordações físicas que
eu tenho, a mais bonita veio muito tempo antes do que eu esperava.
Você, o teu irmão e a minha filha deitados um ao lado do outro
assistindo desenho animado no iPad, como se falassem o mesmo idioma.
Espero ansioso para o dia em que vejo
esta cena se repetir novamente."